Quando um apostador português coloca uma aposta de 100 euros numa plataforma licenciada, uma parte desse dinheiro — independentemente do resultado da aposta — está a financiar federações desportivas portuguesas, programas de saúde pública e o próprio funcionamento do regulador. O IEJO, Imposto Especial de Jogo Online, é o mecanismo fiscal que torna isto possível, e é um dos elementos mais originais do modelo português de regulação de apostas. Poucas pessoas que apostam regularmente sabem exatamente como funciona ou para onde vai o dinheiro.
Como é Calculado o IEJO nas Apostas Desportivas: 8% sobre o Volume
A taxa do IEJO para apostas desportivas é de 8% sobre o volume total de apostas — não sobre a receita do operador, mas sobre o montante total apostado pelos jogadores. Esta distinção é importante: significa que o imposto é cobrado independentemente de o operador ter lucro ou prejuízo naquele período.
Para perceber o impacto: se um operador recebe 100 milhões de euros em apostas num trimestre e paga 85 milhões em ganhos aos apostadores, a sua receita bruta (GGR) é de 15 milhões. Mas o IEJO incide sobre os 100 milhões: 8% = 8 milhões de euros de imposto. Os 7 milhões restantes de GGR têm ainda de cobrir os custos operacionais do operador. Esta estrutura fiscal explica por que a rentabilidade de um operador de apostas é menos óbvia do que o GGR sugere.
Em Q3 2025, o IEJO total — incluindo apostas desportivas e casino online — atingiu 89,8 milhões de euros, um crescimento de 8,8% face a Q3 2024. Em Q1 2025, o valor foi de 82,7 milhões, ligeiramente abaixo de Q1 2024 — uma variação consistente com a sazonalidade normal do mercado, não com uma tendência de queda.
Para Onde Vão as Receitas do IEJO: Federações, Estado e Distribuição
A distribuição das receitas do IEJO é um dos aspectos do modelo português que mais me surpreendeu quando o estudei em detalhe. Uma parte significativa vai diretamente para as federações desportivas portuguesas — o que cria uma ligação direta entre as apostas dos portugueses e o financiamento do desporto nacional.
Em 2024, a Federação Portuguesa de Futebol (FPF) recebeu 33,85 milhões de euros provenientes do IEJO, e a Liga Portugal (LPFP) recebeu 10,85 milhões. Juntas, as entidades do futebol absorveram 72,3% do total distribuído entre federações desportivas naquele ano. O futebol domina o desporto português nas apostas — 71,8% do volume em Q3 2025 — e domina igualmente na distribuição dos benefícios fiscais.
A estrutura de distribuição serve um propósito regulatório claro: criar stakeholders no sistema legal que têm interesse ativo na sua preservação. As federações desportivas beneficiam financeiramente do mercado regulado — o que as incentiva a colaborar com o SRIJ na deteção de manipulação de resultados e no combate ao mercado ilegal. É um modelo de alinhamento de incentivos que outros reguladores europeus têm estudado como referência.
IEJO nas Apostas vs Casinos Online: Taxas Diferentes, Lógicas Diferentes
Para apostas desportivas, a taxa IEJO é de 8% sobre o volume total. Para jogos de casino online (slots, roleta, blackjack), a taxa é de 25% sobre o GGR — a receita bruta do operador, não o volume total apostado. Esta diferença de base de incidência reflete a estrutura diferente de cada segmento.
No casino online, o GGR representa uma fração muito menor do volume total apostado do que nas apostas desportivas — os jogadores de casino tendem a repetir apostas com o mesmo dinheiro muito mais vezes do que apostadores desportivos. Uma taxa sobre o GGR do casino é proporcionalmente similar a uma taxa sobre o volume das apostas desportivas.
A consequência prática para o apostador é que o custo fiscal está incorporado nas odds que a plataforma oferece. Os operadores ajustam as suas margens para acomodar o IEJO — o que significa que uma parte da margem que pagamos quando apostamos não é lucro do operador mas imposto transferido para o Estado e para as federações desportivas.
IEJO e a Sustentabilidade do Modelo Português
O modelo de financiamento por IEJO tem uma lógica circular elegante: as apostas desportivas financiam o desporto que motiva as apostas. A FPF e a Liga Portugal recebem financiamento direto do mercado de apostas — e têm portanto interesse em que esse mercado se mantenha regulado, transparente e livre de manipulação.
Para o apostador individual, o IEJO é invisível na experiência de aposta — não aparece como linha separada, está incorporado nas odds. Mas compreender que 8% de cada euro apostado em desporto vai diretamente para o Estado e para as federações é um enquadramento útil para perceber por que Portugal optou por regular o mercado em vez de o proibir. O modelo gera receita pública, financia o desporto e, teoricamente, protege o apostador melhor do que o mercado ilegal alternativo.
Comparação Internacional: O IEJO Português no Contexto Europeu
A taxa de 8% sobre o volume para apostas desportivas coloca Portugal numa posição fiscalmente exigente face a alguns mercados europeus onde o imposto incide sobre o GGR em vez do volume. A diferença é substancial: se um operador tem uma margem de 10% e paga imposto sobre o volume, o imposto efetivo sobre a sua receita é de 80% (8% do volume = 80% de um GGR de 10%). Num mercado com imposto sobre GGR a 20%, o operador pagaria apenas 20% da sua receita.
Esta estrutura fiscal mais exigente explica em parte o depósito de segurança de 500 000 euros e os requisitos financeiros rigorosos para licenciamento em Portugal — apenas operadores com solidez financeira suficiente conseguem operar de forma rentável. É também um mecanismo de proteção implícito para o apostador: plataformas que não têm dimensão suficiente para absorver este custo fiscal simplesmente não entram no mercado português licenciado.
